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( Já publicado: “Da nossa experiência física concluímos que um objecto não pode ter duas posições distintas num dado instante de tempo. Por outras palavras, um objecto não pode simultaneamente estar em duas posições diferentes.”)

 A metafísica nasceu do facto de o pensamento e a linguagem integrarem a negativa. Podemos afirmar e podemos negar. A metafísica é a compreensão das consequências e implicações da negação de palavras, termos ou conceitos com que nomeamos todos os entes e a sua respectiva actividade, que em conjunto compõem aquilo que é chamado “a realidade física”. Em suma, há metafísica na medida em que podemos dizer “nada” e “não-ser”.

A citação acima apresentada é sugestiva… Ela parece exprimir o óbvio, uma exigência ou imperativo do ser, tal como ele nos parece apresentar-se na “experiência física”. Um “objecto” não pode estar em dois locais diferentes no mesmo instante. Ora, a metafísica diz-nos que há ubiquidade, que ela é possível…. Ao contrapor-se à “realidade fisica” tal como ela foi cientificamente descrita desde Galileu e Newton, a Metafísica manteve em aberto, mesmo contra as acusações de superstição ou ilusão, o movimento e a dúvida que libertam o homem para outras dimensóes possíveis do Ser, que não apenas o ser enquanto objecto físico; o exercício de libertação pela dúvida foi magistralmente exemplificado por Descartes, que assim chegou ao limite da phisis e, perante o nada, reconheceu o metafísico “cogito”.

(…)

No entanto, essa relatividade referencial pode usar o truque de simular sistemas inertes de coordenadas, supostamente estáticos, para fazer medidas e quantificar distâncias. O truque reside em que dois objectos (ou mais) que se desloquem à mesma velocidade podem convencionar entre si que estão imóveis (em relação uns aos outros). Isto tem sido feito desde sempre, implicitamente, por todos os que habitam o Planeta Terra e se movem em conjunto à mesma velocidade; esta árvore e aquela, dizemos nós, estão paradas, e a distância ebntre ambas mantem-se inalterada…

Além disto, não sendo a velocidade da luz instantânea, ou infinita, a ubiquidade é recusada pela Relatividade, uma vez que as viagens no tempo, que são teoricamente possiveis e concretizariam a ubiquidade, não são exequíveis por falta de combustível que permita a um qualquer objecto físico atingir suficiente aceleração. Como tal, e ainda longe da radical transformação teórica que a Física Quântica veio propôr, a Relatividade, de forma algo surpreendente, reafirma o princípio do terceiro excluído. Cada objecto, enm Física, tem que estar num só local, em cada instante mesurável de tempo. Já não se passa necessáriamente o mesmo na Metafísica…

Convém aqui lembrar que a metafísica foi amplamente “invadida” por temas e vivências da histórica expansão das Religiões Monoteístas e Criacionistas. Deus, os Atributos Divinos, a Criação, o Paraíso, a Ressurreição ou Imortalidade da Alma, o Espírito, e muitos outros tópicos vieram animar o palco metafísico, arrastando consigo alguns parentes mais ou menos afastados, como Cabalas, Alquimias, Gnoses, magias e esoterismos de vários tipos.

Este panorama parece algo confuso, denso e assustador, tanta a profusão de acontecimentos históricos e intensíssimas participações no “drama metafísico” que se desenrolou na sequência desta “invasão”… Mas também não podemos deixar de reconhecer que, indiscutivelmente, se tratou de um enredo empolgante…

Porém, há que reconhecer que, em última análise, o pesado lastro proveniente da religião e da magia constituiu um fardo acumulado que foi posto às costas da Filosofia, identificando-se o amor ao saber com o amor ao divino, e o divino com a verdade do ser, o que dificultou um exercício mais filosófico, mais liberto e desinteressado das implicações imediatas e mediatas do que, na vida, são manifestações de religiosidade, de mística ou de poética. Ficou mais sinuoso o caminho filosófico, o caminho daqueles que pretendam encontrar, finalmente despidos das vivências emocionais e das garras da dependência, os princípios e conceitos que se perfilam na “philosophia perennis”.

Foi para esvaziar esse fardo, para recuperar um visão mais clara e um caminho menos tortuoso para o saber que, na época chamada das Luzes, se realizou um conhecido processo de secularização da Filosofia, com o qual teve início a chamada Filosofia Moderna.

Relançando o problema do conhecimento humano desde as suas raízes mais simples e atentando, cuidadosa e detalhadamente, no método que levaria à elaboração dos seus teoremas, os filósofos deram mãos à Ciência e afastaram-se, suspeitosos e entristecidos, senão mesmo revoltados, dos exaltados crentes das religiosas realidades metafísicas, outrora reflexivas, agora dogmáticas, outrora iniciáticas de uma sabedoria individual, agora operativas da humana colaboração com a Obra Divina e, em tal exaltação, vividas com excesso de sangue, suor e lágrimas.

Excesso, claro, repita-se, se medido do ponto de vista daquele filosofar acima referido, que requer um modus faciendi mais plácido, mais contemplativo, que propicie uma progressiva lucidez intelectual capaz de visionar as translúcidas e fugazes ideias universais, se elas existirem, ou, caso não existam, capaz de visionar as ainda mais fugazes e instáveis relações mentais entre impressões sensíveis…

Certamente que a Razão, ou até mesmo essa visão intelectual mais descarnada e etérea, está assente num coração… Quem o negaria? Mas, se nada obsta a que este possa ser santo, e que para tal percorra o curso dos mistérios religiosos com suas exigências de sangue e água benta, indubitavelmente se prefere que seja livre. Essa liberdade, para um verdadeiro filósofo, não é negociável… Ora essa liberdade dá-se necessariamente mal com um Corpus Dogmaticus (não tanto com a fé, que, a ser verdadeira, não é escrava senão do Absoluto e a escravidão para com O Que Não Tem Limites é certamente a liberdade total…), e assim se percebe e terá de dar razão àqueles que realizaram a secularização operada pelas Luzes.

O filosofar que não é inspirado ou confrontado com os conhecimentos científicos e as sabedorias ou tradições perenes perde de vista os terrenos da comum caminhada dos homens e torna-se num exercício de excessiva solidão teórica e reflexiva. Essa solidão pode arrastar o filosofar para um potencial transcender esquizofrénico daquela quotidiana dimensão da vida naturalmente retumbante e laboriosa, mas também repetitiva e mesquinha.

A Física, quer por conceitos, quer por teorias, sempre condicionou e modelou diversos temas filosóficos, ideológicos e políticos. Podemos constatar que, com a aceleração exponencial da moderna investigação científica, a Física ganhou uma dinâmica que conduziu a profundas alterações conceptuais e teóricas, verdadeiras revoluções, como a que foi operada por Einstein no annus mirabilis de 1905. Tais substanciais alterações não foram, de imediato, integradas pelas áreas humanistas do saber, que se mantiveram num percurso de inércia, assente em conceitos que tinham bebido da Ciência e esta mesma havia já ultrapassado. O Marxismo será o exemplo mais flagrante, e o mais patético, uma vez que esta doutrina sociológica impôs em muitas sociedades o que parecia ser uma ideologia de sonho que, em pouco tempo, passou ao pesadelo de práticas políticas opressoras. Durante um período de várias décadas essa ideologia entricheirou-se na “party line” e exerceu um apertado domínio das mentalidades, perpetuando-se assim no poder muito para além da época da total refutação dos seus fundamentos teóricos e “científicos” (de que tanto se orgulhara…).

(…)

http://www.ofilosofo.com/F%C3%ADsica%20post%20Einstein%20e%20as%20suas%20consequ%C3%AAncias%20filos%C3%B3ficas.htm

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